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Artigo científico

Quadril na paralisia cerebral: o que a ciência mostra

Dr. Leonardo Cury Abrahão · CRM-MG 32435 · RQE 1697719 de setembro de 20267 min de leitura
Dr. Leonardo Cury Abrahão apresentando a revisão sobre instabilidade do quadril na paralisia cerebral

Dr. Leonardo Cury Abrahão apresentando o estudo em evento científico.

Em 2026, a revista europeia EFORT Open Reviews publicou o artigo “The approach to hip instability in children with cerebral palsy: an umbrella review” (Abordagem da instabilidade do quadril em crianças com paralisia cerebral: uma revisão guarda-chuva). O Dr. Leonardo Cury Abrahão é um dos oito ortopedistas pediátricos brasileiros que assinam o trabalho, feito em colaboração com a Sociedade Brasileira de Ortopedia Pediátrica (SBOP) para servir de base científica a uma diretriz nacional de vigilância do quadril.

A seguir, explicamos em linguagem simples o que o estudo encontrou e o que isso significa para as famílias.

O que é uma “revisão guarda-chuva”?

É um estudo que reúne e avalia outras revisões sistemáticas — que, por sua vez, já reúnem dezenas de pesquisas. É um dos níveis mais amplos de síntese da evidência científica. Os autores buscaram em nove bases de dados internacionais as revisões publicadas entre 2004 e 2024 sobre crianças e adolescentes com paralisia cerebral: de 754 registros encontrados, 25 revisões sistemáticas preencheram os critérios e foram analisadas, com avaliação da qualidade metodológica de cada uma.

Por que o quadril merece tanta atenção

Na paralisia cerebral, o desequilíbrio muscular, o tônus alterado e as mudanças no formato dos ossos podem fazer a cabeça do fêmur migrar aos poucos para fora do acetábulo. Esse deslocamento é medido na radiografia pelo percentual de migração de Reimers. Se progride, pode levar à subluxação e à luxação, com dor, dificuldade para sentar e para andar e piora da qualidade de vida.

O risco acompanha o nível funcional da criança. Segundo os dados reunidos no artigo, o deslocamento do quadril atinge cerca de 35% das crianças com paralisia cerebral — de praticamente 0% no nível I da escala GMFCS a cerca de 90% no nível V.

Menina em cadeira de rodas conversando com uma médica, de mãos dadas
Imagem ilustrativa.

O que o estudo encontrou

1. A vigilância do quadril funciona

Programas de vigilância do quadril — exame físico e radiografias em intervalos regulares — reduziram as luxações e a necessidade de cirurgias reconstrutivas, e praticamente eliminaram a necessidade de cirurgias de salvamento. Com base nos achados, os autores recomendam:

O artigo também destaca que, a partir de um percentual de migração em torno de 46%, o deslocamento não costuma regredir sozinho.

2. Postura e controle do tônus: benefícios, mas sem prevenir o deslocamento

Órteses, sistemas de posicionamento e parapódios melhoram outros aspectos — como a densidade óssea —, mas não mostraram efeito consistente na prevenção do deslocamento do quadril. O mesmo vale para a toxina botulínica, a rizotomia dorsal seletiva e o baclofeno intratecal: são tratamentos importantes para a espasticidade, mas a evidência de que protejam o quadril é incerta.

3. Cirurgias preventivas

As liberações musculares isoladas (como a dos adutores) apresentaram altas taxas de recorrência, embora possam adiar a cirurgia óssea. A hemiepifisiodese proximal do fêmur — técnica minimamente invasiva que orienta o crescimento do osso — melhorou os parâmetros radiográficos, mas com necessidade frequente de novos procedimentos.

4. Cirurgias reconstrutivas

Quando o deslocamento é maior (em geral, acima de 40% a 50%), a reconstrução do quadril é considerada. Nesse ponto, a combinação de osteotomias do fêmur e da bacia apresentou resultados melhores e menos reluxações do que a osteotomia do fêmur isolada.

5. Cirurgias de salvamento

Quando o quadril já não pode ser reconstruído, procedimentos como a osteotomia valgizante e a ressecção da cabeça do fêmur aliviaram a dor na maioria dos casos. A artrodese (fusão) do quadril teve resultados ruins e, em geral, não é recomendada. A prótese total de quadril melhorou dor e função, mas com taxa alta de complicações.

6. Segurança na cirurgia

Medicamentos antifibrinolíticos, como o ácido tranexâmico, reduziram o sangramento em parte dos estudos, mas a evidência ainda não permite uma conclusão definitiva sobre o uso de rotina.

E a dor?

A relação entre deslocamento e dor é menos direta do que se imagina. As subluxações graves concentram o maior risco de dor, e a vigilância, embora melhore os números da radiografia, nem sempre se traduz em ganho de função ou de qualidade de vida. Por isso os autores defendem que as decisões priorizem função, conforto e qualidade de vida, com expectativas realistas combinadas com a família.

Limites do conhecimento atual

Parte importante das revisões analisadas tinha qualidade metodológica baixa, com populações e tratamentos muito diferentes entre si. O artigo aponta com clareza o que já está bem estabelecido — como o valor da vigilância — e onde ainda faltam estudos de maior qualidade.

O que isso significa para a sua família

Artigo original

Tedesco AP, Melanda A, Moshe D, Rolim Filho E, Blumetti FC, Cury Abrahão L, Morais Filho MC, Moreno Grangeiro P. The approach to hip instability in children with cerebral palsy: an umbrella review. EFORT Open Reviews. 2026;11:208–223.

doi.org/10.1530/EOR-2025-0114 · acesso aberto (CC BY 4.0)

Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica. Diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.

Dr. Leonardo Cury Abrahão
Sobre o autor

Dr. Leonardo Cury Abrahão

Ortopedista e traumatologista com especialização em ortopedia pediátrica e atuação em neuro-ortopedia infantil em Belo Horizonte. CRM-MG 32435 · RQE 16977. Conheça a trajetória ou veja as dúvidas frequentes.

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