O pé em equino — quando o tornozelo fica puxado para baixo e a criança apoia a ponta do pé — é uma das alterações mais comuns na paralisia cerebral espástica. Um consenso de especialistas assinado por oito ortopedistas pediátricos brasileiros, entre eles o Dr. Leonardo Cury Abrahão, organiza o tratamento dessas crianças em etapas claras. O documento trata especificamente dos pacientes deambuladores, ou seja, que andam.
Abaixo, um resumo em linguagem acessível. O texto original é dirigido a profissionais e cada recomendação depende da avaliação individual.
Primeiro: entender que tipo de equino é
Antes de tratar, o consenso recomenda classificar o padrão de marcha da criança com escalas já consagradas e diferenciar duas situações:
- Equino dinâmico — o tornozelo ainda se move bem quando examinado com calma; o que puxa o pé para baixo é a espasticidade;
- Equino fixo — já existe encurtamento estrutural da musculatura da panturrilha, e o tornozelo não alcança a posição neutra.
Um exame simples, o teste de Silfverskiöld, ajuda a saber se o encurtamento envolve apenas o músculo gastrocnêmio ou também o sóleo — informação que muda toda a conduta. O documento lembra ainda de avaliar quadris e joelhos, porque eles influenciam o jeito de andar.

Etapa 1 — Órteses e fisioterapia
Para o equino dinâmico em crianças com melhor nível funcional (GMFCS I a III), o tratamento de primeira linha é a órtese tornozelo-pé (AFO) feita sob medida, associada à fisioterapia. O tipo de órtese muda conforme o caso: as rígidas dão estabilidade na fase de apoio da marcha; as articuladas só são indicadas quando o joelho estende completamente e não há contraturas no quadril ou no joelho.
Etapa 2 — Toxina botulínica e gesso seriado
Quando o equino progride e atrapalha o uso da órtese, entram a toxina botulínica tipo A e, se já há contratura leve ou moderada, os gessos seriados — trocados a cada uma ou duas semanas, por três a quatro semanas, para ganhar comprimento muscular.
Dois pontos merecem destaque:
- a faixa de idade em que a toxina costuma ser mais útil é entre 2 e 8 anos, e o consenso recomenda uso criterioso, com objetivos bem definidos e o menor número possível de aplicações, citando estudos recentes sobre efeitos da toxina no crescimento do músculo;
- a toxina deve ser evitada quando já existe contratura estrutural grave ou fraqueza importante dos músculos que empurram o pé para baixo.
Depois da aplicação, fisioterapia e uso da órtese devem ser intensificados.
Etapa 3 — Cirurgia, e por que não antes da hora
O consenso é explícito: o tratamento conservador deve ser priorizado, sobretudo antes dos 8 anos, porque a deformidade volta com frequência quando a cirurgia é feita muito cedo. O alongamento cirúrgico fica reservado para crianças com deformidade fixa, em geral a partir dos 6 a 8 anos, quando as outras medidas não funcionaram.
Quando há também deformidades no quadril e no joelho com indicação de tratamento, prefere-se a cirurgia multinível em um único tempo, em vez de operar apenas o tornozelo.
A escolha da técnica segue um sistema de três zonas, do procedimento mais suave ao mais extenso: alongamento dentro do músculo quando só o gastrocnêmio está encurtado; alongamento do conjunto gastrocnêmio-sóleo nos casos leves a moderados; e alongamento do tendão de Aquiles apenas nas contraturas graves. Quando existe deformidade óssea rígida do pé, alongar o músculo isoladamente não resolve.
Depois da cirurgia
A recomendação é imobilização com gesso por cerca de quatro a seis semanas, seguida do uso de órtese durante o dia. E, principalmente, acompanhamento de longo prazo: é assim que se detecta cedo tanto o retorno da deformidade quanto o surgimento da marcha agachada.
E quando a criança não anda?
Nas crianças com maior comprometimento (GMFCS IV e V), o consenso orienta restringir a cirurgia a objetivos bem específicos: controle da dor, facilitar a higiene, o posicionamento, as transferências e a adaptação às órteses.
O que a família pode levar dessa leitura
- Existe uma ordem no tratamento: órtese e fisioterapia primeiro, toxina e gesso depois, cirurgia por último.
- Pressa não ajuda: operar muito cedo aumenta a chance de a deformidade voltar.
- A escolha da técnica depende de exames clínicos específicos — por isso a avaliação detalhada, e não só a aparência do pé, define a conduta.
Tedesco AP, Melanda A, Moshe D, Rolim Filho E, Blumetti FC, Abrahão LC, Moraes Filho M, Moreno Grangeiro P. Consenso de especialistas: tratamento da deformidade em equino na paralisia cerebral em pacientes deambuladores.
Resumo elaborado para este site a partir do documento original, que é dirigido a profissionais de saúde.
Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica. Diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.