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Pé em equino na paralisia cerebral: o que recomenda o consenso de especialistas

Dr. Leonardo Cury Abrahão · CRM-MG 32435 · RQE 1697719 de setembro de 20266 min de leitura
Criança andando com órtese tornozelo-pé

Imagem ilustrativa.

O pé em equino — quando o tornozelo fica puxado para baixo e a criança apoia a ponta do pé — é uma das alterações mais comuns na paralisia cerebral espástica. Um consenso de especialistas assinado por oito ortopedistas pediátricos brasileiros, entre eles o Dr. Leonardo Cury Abrahão, organiza o tratamento dessas crianças em etapas claras. O documento trata especificamente dos pacientes deambuladores, ou seja, que andam.

Abaixo, um resumo em linguagem acessível. O texto original é dirigido a profissionais e cada recomendação depende da avaliação individual.

Primeiro: entender que tipo de equino é

Antes de tratar, o consenso recomenda classificar o padrão de marcha da criança com escalas já consagradas e diferenciar duas situações:

Um exame simples, o teste de Silfverskiöld, ajuda a saber se o encurtamento envolve apenas o músculo gastrocnêmio ou também o sóleo — informação que muda toda a conduta. O documento lembra ainda de avaliar quadris e joelhos, porque eles influenciam o jeito de andar.

Criança caminhando com órtese tornozelo-pé
Imagem ilustrativa.

Etapa 1 — Órteses e fisioterapia

Para o equino dinâmico em crianças com melhor nível funcional (GMFCS I a III), o tratamento de primeira linha é a órtese tornozelo-pé (AFO) feita sob medida, associada à fisioterapia. O tipo de órtese muda conforme o caso: as rígidas dão estabilidade na fase de apoio da marcha; as articuladas só são indicadas quando o joelho estende completamente e não há contraturas no quadril ou no joelho.

Etapa 2 — Toxina botulínica e gesso seriado

Quando o equino progride e atrapalha o uso da órtese, entram a toxina botulínica tipo A e, se já há contratura leve ou moderada, os gessos seriados — trocados a cada uma ou duas semanas, por três a quatro semanas, para ganhar comprimento muscular.

Dois pontos merecem destaque:

Depois da aplicação, fisioterapia e uso da órtese devem ser intensificados.

Etapa 3 — Cirurgia, e por que não antes da hora

O consenso é explícito: o tratamento conservador deve ser priorizado, sobretudo antes dos 8 anos, porque a deformidade volta com frequência quando a cirurgia é feita muito cedo. O alongamento cirúrgico fica reservado para crianças com deformidade fixa, em geral a partir dos 6 a 8 anos, quando as outras medidas não funcionaram.

Quando há também deformidades no quadril e no joelho com indicação de tratamento, prefere-se a cirurgia multinível em um único tempo, em vez de operar apenas o tornozelo.

A escolha da técnica segue um sistema de três zonas, do procedimento mais suave ao mais extenso: alongamento dentro do músculo quando só o gastrocnêmio está encurtado; alongamento do conjunto gastrocnêmio-sóleo nos casos leves a moderados; e alongamento do tendão de Aquiles apenas nas contraturas graves. Quando existe deformidade óssea rígida do pé, alongar o músculo isoladamente não resolve.

Alerta do consenso: alongamentos isolados e repetidos do tendão de Aquiles devem ser evitados, principalmente em crianças com comprometimento dos dois lados, pelo risco de hipercorreção, fraqueza e do desenvolvimento da chamada marcha agachada — quando a criança passa a andar com joelhos e quadris flexionados.

Depois da cirurgia

A recomendação é imobilização com gesso por cerca de quatro a seis semanas, seguida do uso de órtese durante o dia. E, principalmente, acompanhamento de longo prazo: é assim que se detecta cedo tanto o retorno da deformidade quanto o surgimento da marcha agachada.

E quando a criança não anda?

Nas crianças com maior comprometimento (GMFCS IV e V), o consenso orienta restringir a cirurgia a objetivos bem específicos: controle da dor, facilitar a higiene, o posicionamento, as transferências e a adaptação às órteses.

O que a família pode levar dessa leitura

Documento de referência

Tedesco AP, Melanda A, Moshe D, Rolim Filho E, Blumetti FC, Abrahão LC, Moraes Filho M, Moreno Grangeiro P. Consenso de especialistas: tratamento da deformidade em equino na paralisia cerebral em pacientes deambuladores.

Resumo elaborado para este site a partir do documento original, que é dirigido a profissionais de saúde.

Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica. Diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.

Dr. Leonardo Cury Abrahão
Sobre o autor

Dr. Leonardo Cury Abrahão

Ortopedista e traumatologista com especialização em ortopedia pediátrica e atuação em neuro-ortopedia infantil em Belo Horizonte. CRM-MG 32435 · RQE 16977. Conheça a trajetória ou veja as dúvidas frequentes.

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